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Um grito de socorro


Escrevo nesse blog Contos e Crônicas, e, modéstia a parte, entendo que meus contos são muito melhores que minhas crônicas.

Diferente das minhas redes sociais, cujos textos são normalmente curtos e ásperos, provocados por algum sentimento de revolta ou gratidão, e que cuja velocidade dos dedos no smart phone permitem divulga-los imediatamente, aqui me permito a escrever sobre reflexões mais profundas ou contar histórias mais poéticas sobre coisas que se passaram comigo ou com alguém perto de mim.

Mas há um sentimento que vem de uma profunda reflexão diante dos fatos que vêm ocorrendo nos últimos tempos que me provocam a escrever esse texto aqui. Normalmente não é o tipo de literatura que você, que está acostumado a ler aqui, encontra, mas é algo de mim cujo espaço me permite abordar.

Nem sempre um ato de insanidade ou de ira é um sinal de um distúrbio de caráter ou de personalidade.

A vida não é tão simples como determinar rótulos para as pessoas a partir de atitudes fim. Não analisar os meios, os contextos, os casos e acasos, e tudo que cerca o ser humano único e especial que foi criado a partir de uma combinação genética de dois seres, e uma combinação de bilhões de experiências que acumulamos durante nossa vida e que nos fazem tomar todas as atitudes que tomamos, é um erro. Essas combinações todas fazem ser quem somos.

Simplificar a vida em nomes pré-definidos partindo do nosso conceito e, na maioria das vezes, preconceitos, chega a ser violento contra nossa singularidade e exclusividade que temos no mundo.
Pior ainda é nos permitir a esses rótulos e começar a agir conforme ele foi definido para nós.

Um ato de insanidade, de ira, de fúria, é um grito de socorro. As vezes sem consequências, as vezes com pequenas consequências, as vezes com tragédias... Mas é um grito de socorro.
A maldade banalizada em forma de bullyng, de brincadeiras preconceituosas, de falta de respeito, de necessidade de aceitação em grupos, é a maior tragédia social que estamos vivendo, pois ela é mãe de todas as outras.

Sempre fui e acredito ainda ser um otimista por natureza, mas está cada vez mais difícil o ser diante de tudo que vemos e vivemos.

A beleza das experiências únicas que vivemos e vamos compartilhando durante nossa vida está deixando de existir. No lugar disso, compramos experiências que nos são vendidas a um preço muito caro: nossa personalidade. E quando pagamos esse preço, quando abrimos mão de nossa personalidade, nos sobra um vazio imenso do tamanho de um microcosmos que somos.

Desse modo, e nesse vazio criado pela troca de nossa personalidade por algo já pronto, cria-se fantasmas que enfrentamos na nossa vida. Alguns de nós os enfrenta com soberda (nem liga pra eles), outros com sabedoria, mas alguns com muito medo. E esse medo é paralisante! Daí vem a timidez, a angústia, o sentimento de vazio e de solidão no mundo. E isso aflita muito aos jovens, num momento de autoafirmação e afirmação social.

Quando criança e jovem, mesmo num mundo 30 anos mais velho que o de hoje (e isso representa pelo menos duas gerações que amadureceram e se tornaram adultos) esses fantasmas me assombravam. Eles se apresentavam em forma de brincadeiras de crianças que, diante de seu não entendimento sobre respeito, aceitação e diferenças, tratavam a mim como alguém que merecia ser hostilizado, xingado, maltratado física e psicologicamente. Um pouco por estereótipo físico e um tanto por estereótipo psicológico: sempre fui mas sensível que as outras crianças. Minha única defesa, e a melhor que eu poderia ter, foi minha capacidade de aprendizado e meu orgulho de ser assim.

Sofri, algumas vezes calado, algumas vezes chorando, muitas vezes me isolando.

Olhar para trás 30 anos depois e ver que isso me fez mais forte é creditar a esses fatos uma importância muito maior que eles de fato tem. Eu credito isso a pura sorte e a Deus.

Tive sorte de aprender que isso era secundário diante do que EU pensava sobre como deveria ser o meu comportamento com outro ser humano. Também credito a um temor por Deus, em forma de medo mesmo e depois de entendimento e respeito, e por ultimo a educação que meus pais, muito mais com atitudes do que com conselhos, me fizeram aprender.

O que estou dizendo aqui que não aprendi a ser alguém pela dor.

Há uma frase que diz que se aprende de duas formas: ou pelo amor ou pela dor.
Sempre acreditei nessa frase, mas me permito a ser uma "metamorfose ambulante" e discordar a partir de hoje. Não se aprende nada pela dor. Aprende-se apenas a sentir medo. Aquele medo que congela a alma, que nos aprisiona diante do mundo. Que sangra dentro de nós.

Mas quando o medo passa, descobrimos que nada aprendemos, e voltamos a errar novamente.
Aprende-se única e exclusivamente pelo amor. Seja o nosso amor próprio, seja o amor de nossos pais por nós, seja o amor de Deus por nós. Somente o amor ensina.

Porque é o amor que descongela o coração. É o amor que inquieta a angústia. É o amor que transforma o grito de socorro em suspiro de alívio. É o amor que torna o ar mais leve e respirável. É o amor que nos tira a venda do desespero que insiste em tampar nossos olhos.

Então também posso dizer que o amor e a sorte me transformaram no ser humano que sou. Eu permiti que o amor entrasse na minha vida.

Fui cercado por esse amor desde o nascimento. Eu o sentia e o vivia! Mas alguma característica genética me fez demonstrá-lo apenas pelos olhos. Na minha infância e na minha adolescência dificilmente saíram de minha boca as palavras "eu te amo".  Mas aqueles que me cercavam e que procuravam olhar dentro dos meus olhos, enxergavam atrás dessa timidez esse amor. Esses eram meus pais, meus irmãos, meus tios... Eles me entendiam.

Hoje sou pai, sou avô... Enxergo esse amor nos olhos de meus filhos e netos. Mas em especial meu pequeno Miguel parece demais comigo nesse sentido. E hoje percebo quanto difícil deveria ser para os meus pais entenderem que eu era diferente.

Ele é sensível. Ele é único e sabe disso.

Mas quer estar inserido no mundo! Quer fazer parte da aldeia global. Quer ser igual aos outros. Quer ser ele, mas quer fazer parte.

E enxergo que, como ele e do jeito dele, esses jovens que pagam com suas personalidades o preço para assumirem essa personalidade que lhes é vendida com a simplicidade que não deveria, gritam por socorro todos os dias. Estamos escutando esses gritos de socorro?

Não sei se estamos... Não da forma como deveríamos. Não só porque não queremos, mas porque em muitos casos, não sabemos ou evidentemente, não temos tempo.
Precisamos ouvir os gritos de socorro.

Não podemos banalizar e achar que, por rótulos, conseguimos estereotipar tudo e todos que agem e que nos cercam.

Devemos respeitar nossa singularidade, nossa unidade, nossa exclusividade.

E esse exercício é mais dolorido que qualquer série de abdominais, flexões ou qualquer exercício  físico que praticamos nas academias de ginástica. Ele envolve um esforço mental, intelectual, espiritual. Ele envolve tudo que nos faz humano.

Estou entrando nessa academia a partir de agora, e de cabeça!

Espero que entre também!

Comentários

  1. 👏👏👏👏👏👏👏 muito profundo e revelador o seu texto. Parabéns pelo homem de bem que se tornou... e pelo marido, pai, avô e filho que é para nós. Te amo! ❤

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  2. Parabéns, texto mais do que realista!

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  3. Muito bom,digo ainda a superação dos momentos difíceis da vida nos enriquece,torna fortes e é isso que vejo e você hoje pelo profissional que é.

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