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Seo Duvidoso e Dr Objetivo


            - Ta esperando o que?
            - O óbvio!
            - E a que horas ele passa?
            - A todo instante...
            Foi assim que começou aquela relação. O lugar era um úmido e fétido ponto de ônibus. Ali se encontravam o Objetivo e o Duvidoso. Lógico que a primeira pergunta é do Seo Duvidoso, e a segunda, do Dr Objetivo.
            Essa relação complexa ficava cada vez mais complicada a medida que o diálogo prosseguia:
            - O Sr Tem horas?
            - Não. Estou com todo o tempo do mundo.
            - E o que lhe trouxe aqui?
            - Um sonho. Te conhecer.
            Naquele momento um silêncio se fez por mais de dez minutos. Apenas os olhares se cruzavam, se mediam, se entrelaçavam. O Seo Duvidoso olhava de baixo pra cima, de cima pra baixo, entre o alto da cabeça e o baixo do sapato. Admirava como o Dr Objetivo se vestia: Roupas impecáveis, um elegante terno. Barba aparada, cabelo cortado, cara de gente séria e bem resolvida. A dúvida do Seo Duvidoso é o que trazia um homem, aparentemente tão bem resolvido, aquele ponto de ônibus fétido e úmido, numa terça-feira cinza após uma madrugada de chuva e mais chuva.
            Do outro lado, o Dr Objetivo era só sorriso. Antes dessa conversa, ele já havia falado com muita gente. Crianças, senhoras, adultos, gente com sorriso estampado no rosto e gente com lágrimas rolando dos olhos. Era alguém em quem se podia confiar. Ele olhava o Seo Duvidoso a espreita da próxima pergunta. Ele seria o interrogado, afinal, ele era o Dr Objetivo, a quem o Seo Duvidoso despertava tanto embaraço e desconfiança.
            O Dr Objetivo também reparava naquele que via a sua frente. Era exatamente como ele imaginava que o ia encontrar: Chapéu surrado a cabeça, barba por fazer, cabelo por cortar, rosto marcado por expressões sofridas, camisa aberta até o terceiro botão, de cima pra baixo, e de baixo pra cima também. Calças surradas, sapato, meias, tudo surrado. Era alguém cujo fracasso havia batido a porta, entrado, sentado a melhor poltrona da sala e ficado lá pro resto da vida.
            O silêncio foi quebrado:
            - Eu não entendo e tenho dúvidas. O senhor me parece uma pessoa muito bem resolvida, não precisa estar aqui, e muito menos ter o sonho de conhecer alguém tão fracassado quanto eu. Vivo uma vida de fracassos! Quando jovem, sonhava com uma carreira militar de destaque no exército brasileiro, sabia de cor todos os hinos e bandeiras do nosso país. Tinha orgulho dos nossos símbolos e signos. Me apeguei a um regime autoritário que me iludiu. Me deu a impressão que a ordem a ser imposta naquele momento era a solução para a desordem que parecia ter tomado conta do mundo e do nosso país.
            Fracassei! O exército me considerou incapaz, pois minha arcada dentária era torta, e ainda zombou de mim. Não quiseram saber da minha admiração por eles, e me disseram: - Vá, junte-se aos marginais lá fora, e morra lutando por algo. Ou viva uma vida infeliz fazendo tudo aquilo que escolherem pra você. Escolhi a segunda opção. Fui faxineiro, carpinteiro, jardineiro, mendigueiro. Não fui nada! A vida me trouxe aqui, esperando um ônibus que de certo virá lotado, para pedir e receber a esmola oficial que o governo me paga hoje por ser uma pessoa que chegou aos 65 anos de idade sem a mínima dignidade.
            O Dr Objetivo então respondeu:
            - Meu caro amigo, suas escolhas fizeram o seu destino, e eu lamento muito por isso. Mas eu vou lhe contar uma história: - Quando jovem, sonhava com uma carreira militar de destaque no exército brasileiro, sabia de cor todos os hinos e bandeiras do nosso país. Tinha orgulho dos nossos símbolos e signos. Me apeguei a um regime autoritário que me iludiu. Me deu a impressão que a ordem a ser imposta naquele momento era a solução para a desordem que parecia ter tomado conta do mundo e do nosso país.
            Fracassei! O exército me considerou incapaz, pois minha arcada dentária era torta, e ainda zombou de mim. Não quiseram saber da minha admiração por eles, e me disseram: - Vá, junte-se aos marginais lá fora, e morra lutando por algo. Ou viva uma vida infeliz fazendo tudo aquilo que escolherem pra você. Escolhi a primeira opção.
            Lutei disposto a morrer por um ideal. Descobri que não se tratava de um bando de marginais que, de forma desordenada lutava por nada ou coisa alguma. Aprendi que ali morava um sonho, de um país livre que pedia por justiça, por igualdade social, por autonomia de suas decisões. Fui castigado, perseguido, mal tratado, espancado, preso. Mas continuei. Com o mesmo espírito de luta, me formei advogado, defendi causas espetaculares, que fizeram de mim um homem, que além de rico é plenamente realizado. Hoje, tenho um famoso e conceituado escritório de advocacia, defendo todo tipo de causa, e que uma vez por semana separa o dia todo para, de forma gratuita, ajudar aqueles que precisam de meus préstimos, e assim, contribuo para um mundo melhor também. Ah, e de quebra, mandei arrumar meus dentes...
            As escolhas que fiz fizeram de mim quem eu sou, assim como as que fez fizeram de você quem você é. Quem queremos ser, afinal?
            E de sobressalto, acordou na madrugada de segunda pra terça, aquela madrugada que chovia e chovia. A tristeza em seu coração pela recusa no exército foi substituída por um sentimento estranho. Os caminhos haviam sido traçados naquele momento! As escolhas foram colocadas a mesa. O destino estava traçado. E a vida seguiu, como tinha que seguir...

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